Nos últimos dias, a internet foi tomada por uma discussão teológica: Pablo Marçal batizou uma pessoa em um culto — e isso dividiu opiniões. Afinal, qualquer cristão pode batizar? Ou esse é um ato exclusivo de pastores e ministros ordenados?
A polêmica reacendeu um debate antigo: quem pode batizar segundo a Bíblia? Para responder, precisamos olhar para as Escrituras Sagradas, o contexto histórico da igreja primitiva, e até mesmo os aspectos escatológicos que influenciam o entendimento sobre autoridade espiritual nos últimos tempos.
1. O Batismo no Novo Testamento: Autoridade ou Obediência?
Jesus, em Mateus 28:19-20, diz:
“Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”
Aqui, o mandamento do batismo está ligado à Grande Comissão — dada não só aos apóstolos, mas aos discípulos de Cristo. Em Atos, vemos pessoas sendo batizadas em vários contextos, como:
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Filipe, um diácono (não pastor), batiza o eunuco etíope (Atos 8:36-38)
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Ananias, um discípulo comum, batiza Paulo (Atos 9:17-18)
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Pedro comanda o batismo de Cornélio e sua casa (Atos 10)
Esses episódios mostram que a prática do batismo não estava restrita à figura pastoral, mas sim àqueles comprometidos com a fé e o discipulado de novos convertidos.
2. A Igreja Primitiva e a Institucionalização do Batismo
Nos primeiros séculos, com o crescimento da Igreja e o surgimento de heresias, o batismo foi institucionalizado como uma prática oficial — apenas permitida a líderes ordenados. Isso se intensificou no período da Igreja Católica Romana, onde a autoridade eclesiástica foi centralizada.
Com a Reforma Protestante, no entanto, reformadores como Martinho Lutero e João Calvino defenderam que o batismo era um sacramento da fé e da Palavra — e que a autoridade vinha da Palavra de Deus, não apenas da instituição eclesiástica.
Ainda assim, muitas denominações protestantes mantiveram a ideia de que apenas pastores deveriam batizar, em nome da ordem e da doutrina.
3. E Agora? O Caso de Pablo Marçal e a Reação da Igreja
A atitude de Pablo Marçal, embora questionada por alguns, encontra respaldo na prática bíblica. A crítica se intensifica por conta de seu histórico fora dos “padrões convencionais da igreja”, mas o ato em si — batizar uma pessoa em nome de Jesus — é algo biblicamente permitido a qualquer discípulo de Cristo.
A reação negativa pode refletir mais uma disputa sobre autoridade institucional do que uma base bíblica sólida. E esse debate nos leva para um ponto crucial da escatologia cristã.
4. O Contexto Escatológico: Últimos Dias e Sacerdócio de Todos os Crentes
Vivemos em um tempo onde o Evangelho precisa correr — e rápido. Em 1 Pedro 2:9, lemos:
“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa…”
O Novo Testamento apresenta o conceito de que todos os crentes são sacerdotes. Se somos sacerdotes, por que não poderíamos batizar?
No contexto escatológico — onde a Igreja é chamada a se mover com urgência e sem dependência de estruturas fixas — o sacerdócio universal dos crentes é um princípio vital. A missão deve ser cumprida por todos, não apenas por ofícios eclesiásticos.
5. Conclusão: Quem Pode Batizar, Afinal?
À luz das Escrituras, do contexto histórico e da urgência escatológica:
✅ Todo discípulo de Jesus, comprometido com a fé bíblica, pode batizar.
❌ Não há um mandamento exclusivo que restrinja essa prática apenas a pastores.
O que realmente importa é o arrependimento genuíno, a confissão de fé, e o desejo de seguir a Cristo — não o título de quem está na água com você.
A discussão é válida e precisa ser feita com respeito, teologia e coração ensinável. Mas acima de tudo, que não deixemos de batizar, discipular e avançar com o Reino por causa de rótulos humanos.
Reflexão extra:
A ordenança do batismo é, de fato, para discípulos. Não para qualquer pessoa, mas para aqueles que seguem a Cristo de forma intencional, que vivem o Evangelho e fazem outros discípulos. Por isso, o problema não é quem batiza, mas quem essa pessoa é em Cristo.
Se Pablo Marçal ou qualquer outro cristão é um discípulo de Jesus, então ele pode batizar. Se não for um discípulo genuíno, então nem batizar e nem pregar deveria estar fazendo. A questão, portanto, não é o cargo eclesiástico, mas o compromisso real com o Reino.
Essa é uma chamada à coerência: ser discípulo é pré-requisito para batizar, mas ser pastor não é. O discipulado é uma identidade espiritual, não um cargo institucional.